segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Compasso
A visão periférica permitia apenas visualizar uma multidão de cabeças quase que similares, esguias e perenes, sem muitas ondas ou movimentos. As notas produzidas pela banda experiente coloriam, em muitos tons, diversas partes do jardim, inclusive rostos pálidos que ainda permaneciam nos anseios do dia anterior. Era uma atmosfera longínqua que concentrava em si expectativas de um domingo de sol com a trilha sonora de séculos passados somada a topetes coloridos que se destacavam no mar comum de cérebros revestidos por muitos ou poucos pêlos. O intervalo entre duas canções deu espaço a uma cena admirável. Para muitos curiosamente espantosa. Adornado com folhas naturais verdes e uma rosa em botão, um chapéu listrado de preto e branco vestia uma dama inquieta, de lábios perfeitamente vermelhos, cintura compassada e vestes que acompanhavam as suas listras. Mas quanta influência pode ter um chapéu sobre a visão de quem o vê! Sim. Como se boiasse sobre um mar de bolhas rígidas e difíceis de serem estouradas, ele era facilmente estranhado pelos olhares serenos a cada vez que aparecia por aqui ou por acolá, em meio à multidão não-presente. O saltitante personagem permitia que o verde de suas folhas fosse confundido com o de outras, afixadas em árvores que testemunhavam o momento com certo privilégio e posição invejáveis. Era intrigante o fato de que muitos vestiam chapéus de todos os tipos e sabores e que os mesmos passavam desapercebidos quando comparados ao único chapéu que vestia em si uma grande notável. Naquele instante, o local configurou-se e os muitos elementos como música, sol, chafariz e mini-cenouras conectaram-se e doaram, involuntariamente, o cenário perfeito para que o chapéu exibisse o que portava. A dama parecia conhecer de coeur todas as canções embaladas e mostrava tal domínio através dos braços, quadris e, principalmente, pelas nuvens de areia que formava em torno de si como consequência da firmeza e segurança de seus passos alinhados, inquietos dentro de charmosos sapatos pretos. As lentes dos óculos e das câmeras apontavam, agora, para o chapéu e seu conteúdo, e não mais para elementos turísticos artificiais já conhecidos. Não se sabia o que era mais fascinante: as listras pretas e brancas que contrastavam com as grandes folhas verdes no alto ou se era a face risonha requebrante centímetros abaixo. Não se sabia o que era mais chocante: a alegria dissipada tão rapidamente pelo local ou se era a surpresa espantosa das pessoas frente a algo que é, supostamente, natural. Feliz. Após eternos minutos, o chapéu parecia experenciar em si o fato de que possuía limitações físicas que o impossibilitariam de continuar a realizar o mesmo encantamento seguidamente por um período de tempo similar. Os passos riscados pelos quatro cantos do jardim, agora dançante, revelavam certo cansaço e uma necessidade de encontrar um local para se recompor, mesmo em meio a flashs descuidados e elogios envergonhados. Para recarregar-se, o chapéu escolheu o espaço vazio de um banco no qual eu me via sentado. Aproximou-se, pediu-me permissão e após um singelo piscar de olhos se acomodou na altura de minha testa colocando, em seguida, a senhora em uma confortável posição. A mesma visão periférica inicial voltou a se fazer presente para todos do local porém, o que o meu ombro esquerdo passou a presenciar de tão perto era, sem dúvida, um presente. Ploc! Lá se foi a bolha na qual eu habitava. E novas palavras passaram a reconfigurar minha tarde no Jardim de Luxemburgo.
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